Em um cenário marcado por mudanças climáticas e eventos extremos cada vez mais frequentes, um estudo inédito do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) expõe a vulnerabilidade de crianças e adolescentes brasileiros diante de desafios ambientais. O relatório, que detalha profundas desigualdades regionais, deu origem ao Painel Crianças e Meio Ambiente, desenvolvido em parceria com a organização Vital Strategies.
Cidades em estado de alerta
O levantamento identifica que 333 municípios brasileiros — o equivalente a 6% do total — enfrentam uma situação de vulnerabilidade socioambiental severa. A análise baseou-se em 14 indicadores distribuídos em quatro eixos: qualidade do ar, infraestrutura urbana e ambiental, eventos climáticos extremos e condições do ambiente escolar. Segundo o Unicef, crianças são as mais afetadas, pois não possuem autonomia para identificar riscos ou tomar decisões de proteção, dependendo inteiramente de seus cuidadores.
Critérios de prioridade
A plataforma classifica as cidades em três níveis de atenção. O nível 3 exige intervenção imediata; o nível 2 demanda planejamento de curto a médio prazo; e o nível 1 requer apenas monitoramento. Entre os fatores de risco mapeados estão a falta de saneamento básico, a recorrência de secas e enchentes, e níveis de poluição do ar acima das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Enquanto 333 cidades foram classificadas no grau máximo de prioridade, apenas 108 municípios não apresentaram riscos críticos em nenhum dos indicadores analisados.
Geografia da desigualdade
O impacto ambiental é desproporcional entre as regiões. Estados do Norte, como Pará, Acre e Amazonas, somados ao Maranhão e Mato Grosso, concentram as cidades com os piores desempenhos. Na região Norte, 94% dos municípios enfrentam problemas graves de qualidade do ar, agravados pelas queimadas, enquanto o Sudeste sofre com a poluição decorrente do tráfego intenso e de atividades industriais.
No que tange aos eventos climáticos, como chuvas intensas, as regiões Norte e Sul concentram o maior número de cidades em risco. Já no quesito infraestrutura, o Nordeste enfrenta desafios acentuados pela escassez hídrica e pela limitação de recursos financeiros para obras públicas. Quanto ao ambiente escolar, o Nordeste e o Sudeste lideram o ranking de unidades de ensino carentes de áreas verdes.
Ferramenta de gestão
O Painel Crianças e Meio Ambiente está disponível para consulta pública, permitindo que gestores e a sociedade civil acessem os dados detalhados de cada um dos 5.571 municípios brasileiros. Além do diagnóstico, a ferramenta oferece 50 recomendações práticas, que variam de obras de infraestrutura a medidas institucionais. O objetivo é transformar os dados em políticas públicas eficazes, garantindo que o ambiente urbano seja um espaço seguro e saudável para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes.
Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

