O mundo registrou, pelo terceiro ano consecutivo, uma queda no número de pessoas que passam fome. Segundo o relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026” (SOFI), divulgado esta semana pela ONU, 645 milhões de pessoas enfrentaram a fome em 2025. O dado representa uma redução de 14 milhões em relação ao ano anterior e uma queda de 43 milhões na comparação com 2022.
Radiografia da Fome Global
O levantamento, que reúne dados da FAO, FIDA, OMS, PMA e Unicef, aponta que 7,8% da população mundial vive em situação de fome. Embora o índice venha apresentando melhora, o ritmo de progresso ainda é considerado lento pelos especialistas. O diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, alertou que a erradicação da fome exige um compromisso político sólido, além de investimentos sustentados e políticas públicas eficientes. A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar do Brasil, Fernanda Machiaveli, reforçou o coro em Roma, destacando que a fome é um problema evitável quando governos colocam a desigualdade no centro da agenda política.
Insegurança Alimentar Moderada
Além da fome extrema, o relatório monitora a insegurança alimentar moderada ou severa — condição de quem não consome nutrientes suficientes para uma vida saudável. Estima-se que 2,1 bilhões de pessoas (25,8% da população global) viviam nessa condição em 2025. Apesar de representar uma queda significativa de 86 milhões de pessoas frente a 2024, o número ainda permanece acima dos níveis registrados antes da pandemia.
Desigualdade entre Continentes
A recuperação é marcada por um cenário desigual. Enquanto Ásia, América Latina e Caribe apresentam avanços graduais, a África continua sendo o ponto mais crítico. O continente africano concentra 309 milhões de famintos, atingindo uma em cada cinco pessoas. O impacto é severo também na insegurança alimentar: mais da metade da população africana (56,6%) enfrenta dificuldades para acessar alimentos de qualidade, enquanto na América Latina esse número é de 22,9%.
Vulnerabilidade de Mulheres e Crianças
As disparidades sociais seguem sendo um desafio, com mulheres sendo desproporcionalmente afetadas. Globalmente, uma em cada três mulheres não consegue atingir a diversidade alimentar mínima recomendada. O cenário para a infância também preocupa: apenas 30,8% das crianças entre 6 e 23 meses consomem uma dieta minimamente diversificada. Indicadores como o atraso no crescimento infantil e a anemia em mulheres em idade fértil seguem em patamares que ameaçam o cumprimento das metas globais para 2030.
O Peso do Custo Alimentar
O relatório aponta que o elevado custo das dietas saudáveis é o principal entrave para a segurança alimentar. Em 2025, 2,69 bilhões de pessoas não podiam arcar com os custos de uma alimentação adequada. Na África, essa impossibilidade atinge 66,6% da população. Especialistas defendem que, para mudar esse quadro, são necessários investimentos robustos em infraestrutura agrícola, pesquisa, irrigação e reformas na cadeia produtiva, reduzindo o preço final ao consumidor.
Desafios para o Futuro
As projeções para os próximos anos mantêm o alerta ligado. Conflitos geopolíticos, eventos climáticos extremos e a redução do financiamento humanitário internacional são fatores de risco que podem comprometer os avanços conquistados recentemente. Para o diretor da FAO, o fortalecimento dos sistemas agroalimentares é a única via para garantir resiliência frente a crises, sejam elas naturais ou causadas por conflitos humanos.
Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.

