Quatro anos após o assassinato brutal do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, o Vale do Javari, no Amazonas, continua vivendo um cenário de extrema vulnerabilidade. A maior concentração de povos isolados do planeta tornou-se um alvo estratégico para uma rede criminosa que conecta narcotráfico, pesca ilegal, grilagem e extração clandestina de recursos naturais.
O avanço das economias ilegais
Pesquisas recentes indicam que o crime organizado utiliza a vastidão da floresta amazônica e a malha hidrográfica como corredores logísticos para escoar produtos ilícitos. Essa estrutura, financiada por grandes criminosos, mantém uma rede de apoio que inclui armas, barcos e combustíveis, transformando a região da tríplice fronteira (Brasil, Peru e Colômbia) em um laboratório de lavagem de dinheiro e exploração predatória.
Resistência solitária e risco constante
Sem poder de polícia, a Equipe de Vigilância da Univaja (EVU) atua na linha de frente para proteger o território, muitas vezes suprindo a ausência do Estado. Indigenistas relatam que a falta de reconhecimento oficial torna esses vigilantes alvos mais fáceis para invasores armados. Casos de tortura e ameaças diretas a lideranças indígenas e servidores públicos tornaram-se parte de uma rotina perigosa que, segundo especialistas, não recebe a atenção estrutural necessária.
O uso fraudulento do CAR
O estudo aponta que o Cadastro Ambiental Rural (CAR) tem sido usado de forma criminosa para tentar legalizar a ocupação de terras públicas. Cerca de 64% do desmatamento no entorno do Vale do Javari ocorre em áreas com registros de CAR, que, embora autodeclaratórios, funcionam como uma espécie de ‘falso título’ para grileiros que avançam sobre o território.
Resposta oficial
Órgãos como Ibama, Funai e a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) afirmam que têm intensificado operações integradas, reforçado o efetivo na região e investido em inteligência para coibir as atividades criminosas. No entanto, lideranças indígenas reforçam que a presença do Estado ainda é pontual, enquanto a ameaça do crime organizado é permanente, colocando em risco a vida dos povos originários e o futuro da floresta.
Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução.

