Transformar a complexidade do mundo em poesia é um exercício de sensibilidade que, agora, chega mais perto do público infantil. A obra da poeta Orides Fontela, conhecida pela precisão cirúrgica de seus versos — como ao definir uma nuvem como “a flor do céu” —, acaba de ganhar uma adaptação voltada para os pequenos: o livro Pelos Olhos de Orides (Editora Hedra). A publicação, lançada neste mês de julho, utiliza elementos do cotidiano, como pássaros, flores e o próprio tempo, para convidar crianças a uma nova forma de contemplação.
Poesia como alimento para a sensibilidade
Para o poeta e educador André Gravatá, o contato precoce com a literatura é um motor de transformação. “Fico imaginando uma criança que se depara com poemas tão cheios de mistério e intensidade. É a chance de ver o mundo por outra perspectiva”, afirma. Segundo Gravatá, a infância é o terreno fértil onde a poesia encontra eco, já que o modo de ser das crianças — curioso, lúdico e investigativo — assemelha-se à própria natureza do fazer poético. Ao ler, a criança nutre a capacidade de espantar-se e de brincar com as palavras.
Orides Fontela: o olhar investigativo
A homenagem a Orides Fontela, que faleceu em 1998, foi um dos destaques da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O organizador da obra, Augusto Massi, ressalta que a poesia de Orides dialoga com a criança pelo seu caráter silencioso e observador. Massi lembra que a poeta encontrava na natureza, como no ato de observar pássaros ou o vento, uma fonte de reflexão profunda, mas acessível. O livro, por sua vez, foi concebido para instigar perguntas, permitindo que a criança não apenas leia, mas “teça” suas próprias interpretações sobre o que vê.
Arte que convida à liberdade
O projeto gráfico de Pelos Olhos de Orides, assinado pela ilustradora Cynthia Cruttenden, evita o óbvio. Em vez de ilustrações figurativas literais, o livro aposta em formas, cores fortes e movimento. A intenção é não limitar a imaginação do leitor, oferecendo uma experiência visual que instiga a curiosidade. “Não há uma figura única e clara, mas formas que trazem a dualidade das coisas. É uma abordagem livre que convida a criança a completar a cena com seu próprio olhar”, explica a ilustradora.
O papel da literatura na formação cidadã
A Flip 2026 reafirmou a importância de integrar as novas gerações ao universo literário. Através de iniciativas como o Circuito Cultural, centenas de estudantes da rede pública tiveram a oportunidade de vivenciar o festival. Projetos dessa natureza, espalhados pelo Brasil, visam ampliar repertórios e fortalecer o senso de pertencimento de jovens e crianças.
Para especialistas e educadores, o impacto de ver uma criança abraçada a um livro, tratando a leitura como uma forma de brincar e descobrir o mundo, é a prova de que o investimento em políticas de incentivo à leitura deve ser prioridade. A afetividade construída na infância, mediada por eventos literários e livros provocativos, é o alicerce para a formação de cidadãos mais criativos, críticos e preparados para seus futuros projetos de vida.
Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

