O drama da invisibilidade nas periferias
Com o lançamento de Coração sem Medo, o escritor Itamar Vieira Junior conclui sua impactante ‘Trilogia da Terra’. Após o fenômeno Torto Arado e Salvar o Fogo, o autor volta seu olhar para o drama universal do desaparecimento de filhos, uma ferida que assola famílias brasileiras, especialmente nas periferias.
A busca por justiça de Rita Preta
A trama acompanha Rita Preta, uma caixa de supermercado em Salvador que vê sua vida ser interrompida pelo sumiço repentino de um de seus três filhos. O que começa como um conflito familiar transforma-se em uma busca angustiante por respostas em uma cidade marcada pela violência urbana e pela letalidade policial. A obra reflete uma realidade brutal: só no primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou mais de 43 mil desaparecimentos, uma média de 242 casos por dia.
Literatura como forma de humanização
Para o escritor, a arte não tem o papel de apresentar soluções imediatas, mas de servir como um espelho incômodo para a sociedade. Ao trazer para a ficção o sofrimento dessas mães, Itamar busca devolver a humanidade a figuras que, muitas vezes, são tratadas apenas como números em estatísticas policiais ou manchetes superficiais.
Do campo para o concreto da cidade
Neste novo romance, o autor desloca sua lente crítica do conflito agrário para as contradições do ambiente urbano. Ao narrar a trajetória de Rita, que migrou do interior para a capital em busca de uma vida melhor, o livro denuncia que, apesar da mudança de cenário, o padrão de desigualdade e a disputa pelo território — seja ele a terra física ou o próprio corpo humano — permanecem os mesmos.
O corpo como território
Itamar reforça que sua trilogia é conectada pela ideia de ‘território’. Se antes a terra era o centro da disputa, agora o corpo do filho desaparecido torna-se a fronteira final. O autor conclui que, enquanto existirem corpos negligenciados pelo Estado e pela sociedade, a violência histórica continuará ecoando em nossas vidas.
Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

