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Flip: evento de abertura define Orides Fontela como poeta universal

Brasil e Mundo Cultura

A 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) abriu suas portas nesta quarta-feira (22) com uma homenagem marcante à poeta Orides Fontela. Em uma mesa que lotou o auditório da cidade histórica, o crítico literário e editor Augusto Massi definiu a homenageada como uma figura de alcance universal, capaz de equilibrar fragilidade e força em uma obra singular.

Uma voz alucinada e lúcida

Durante a abertura, Massi, que conviveu pessoalmente com a autora, sublinhou a complexidade de seu legado. “Orides não é um sim, nem um não, mas um sim que traz o não no seio”, afirmou o crítico, destacando como a poeta transitou entre a lucidez extrema e o misticismo. Acompanhado pela poeta Marília Garcia, Massi guiou o público por uma trajetória que integra influências diversas, desde a formação católica e a tradição greco-romana até o rigor da filosofia e a espiritualidade do zen budismo.

A força do cotidiano e a economia verbal

O percurso criativo de Orides é marcado por um rigor formal que evoluiu ao longo de cinco obras fundamentais: Transposição, Helianto, Alba (vencedor do Prêmio Jabuti), Rosácea e Teia. Massi ressaltou a transição temática presente em Rosácea, onde a poeta passa a incorporar elementos da sua vida pessoal e de suas origens humildes. Em poemas como Herança, a escritora eleva objetos simples — um martelo, chaves, um lenço — a uma categoria de riqueza simbólica. “A pobreza, na Orides, é a sua riqueza. Tudo o que ela reduz vira alguma coisa que se irradia de sentido”, observou o professor.

Poesia como imagem e corpo

Além da precisão vocabular, Orides era uma entusiasta da dimensão visual do texto. Massi destacou o uso estratégico de sinais gráficos, como no poema São Sebastião, onde os travessões funcionam como as próprias flechas que atravessam o corpo do mártir, espelhando-se nos cortes que rasgam as palavras. Essa construção plástica, aliada ao uso frequente de formas geométricas, marca o estilo inconfundível de sua escrita.

O derradeiro olhar sobre o fim

O encerramento da obra de Orides, marcado pelo livro Teia, publicado dez anos após o anterior, revela uma poeta que encara a finitude. Massi estabelece um paralelo poético entre a ferocidade de seus primeiros textos e a maturidade de seus últimos versos. Ao citar o poema Estrela da Tarde, o crítico pontua a serenidade final da autora: “Ela está escolhendo a estrela que brilha antes da noite chegar, com muita intensidade. É o último suspiro de uma voz que não precisava mais do amanhecer para se fazer presente”.

A programação da Flip segue até domingo (26), com diversas atividades espalhadas pelo centro histórico de Paraty, mantendo vivo o debate sobre o legado e a radicalidade de Orides Fontela.


Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

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