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Vale do Café celebra 70 anos de Mestra Fatinha e encontro dos Jongos

Brasil e Mundo Eventos

O Vale do Café, no sul fluminense, tornou-se palco de uma celebração histórica neste final de semana. O 5º Encontro dos Jongos reúne 450 lideranças de 18 quilombos e comunidades tradicionais dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. O evento, realizado no Parque das Ruínas de Pinheiral, celebra não apenas a cultura ancestral, mas também o aniversário de 70 anos de Maria de Fátima da Silveira Santos, a Mestra Fatinha, uma das figuras mais emblemáticas da preservação da memória negra no Brasil.

Legado e resistência no Vale

O local escolhido para o encontro é carregado de significado histórico: as Ruínas de Pinheiral abrigaram, nos tempos do Brasil Colônia, a Fazenda São José dos Pinheiros, que forçou o trabalho de mais de 3 mil negros escravizados. Segundo Mestra Fatinha, a manutenção do jongo é a forma encontrada pelas famílias para honrar a herança deixada por seus antepassados.

Com cinco décadas de dedicação à militância cultural, Fatinha define o jongo como a “verdadeira bandeira de luta do povo preto”. Ela explica que, historicamente, a prática servia como uma ferramenta multifuncional para os escravizados: um meio de organização social, resistência, luto, celebração aos orixás e manutenção de laços afetivos.

O reconhecimento do saber popular

A trajetória da Mestra Fatinha ultrapassou as fronteiras das comunidades tradicionais. No ano passado, seu trabalho recebeu o reconhecimento acadêmico com a concessão do título de “Notório Saber” pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde colabora há mais de uma década no projeto Encontros de Saberes.

Para a líder comunitária, o objetivo central desse trabalho é protagonizar a narrativa do povo negro. “Aqui no Vale do Café se trabalha muito a memória dos barões, e a gente vem na contramão contando a história do povo preto, porque foi o nosso povo que construiu todo esse império”, afirma.

Rumo à titulação de quilombo

O trabalho de preservação cultural trouxe resultados práticos para a região. Em 2024, a Fundação Palmares certificou a área como comunidade quilombola. O próximo passo, agora, é avançar junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para a delimitação definitiva do território, medida que, segundo Fatinha, garantirá maior autonomia e visibilidade para o desenvolvimento das tradições locais.

Raízes e memória do jongo

O jongo — também conhecido como caxambu ou congo — foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan em 2005. A manifestação é um dos pilares da cultura de matriz africana no Sudeste brasileiro, mantida por descendentes de povos Bantu, vindos de regiões como Congo e Angola.

Após a abolição da escravatura, a prática acompanhou o êxodo da população negra em direção aos centros urbanos, tornando-se um dos alicerces rítmicos que ajudaram a fundar as primeiras escolas de samba no Rio de Janeiro.

Programação e tradição

O evento, fruto de uma parceria entre coletivos culturais, ministérios e a prefeitura local, culmina neste domingo (26), data que marca o Dia de Sant’Ana e o Dia Estadual do Jongo. A programação inclui uma procissão tradicional, com mais de um século de existência, que conecta a fé cristã ao sincretismo religioso com Nanã. O cortejo tem saída prevista para as 18h, partindo da Casa do Jongo de Pinheiral.


Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

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