Ciência e folclore: A homenagem do Garantido
O Festival de Parintins agora tem presença garantida na literatura científica mundial. Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) batizaram duas novas espécies de gafanhotos com nomes inspirados em toadas do Boi-Bumbá Garantido. A descoberta, publicada na revista internacional Zootaxa, faz parte de um levantamento que identificou nove novas espécies e quatro novos gêneros de insetos na região.
A espécie Kamara kratxatxa — que pode ser traduzida como “gafanhoto-onça” — foi uma homenagem à toada “Kamara”, sucesso do Vermelho em 2026. A nomeação foi um trabalho conjunto com o pesquisador João Kamarayano, da etnia Hixkaryana, unindo o rigor científico à riqueza da cultura indígena.
Já a espécie Proscopia caacy teve como musa a toada “Mãe da Mata”, hit do Garantido em 2011. O nome escolhido, “Caacy”, vem do tupi-guarani e significa justamente “mãe da floresta”, uma referência direta à conexão profunda entre o festival e a preservação ambiental.
Amazonense à frente da pesquisa
O trabalho de campo e laboratório foi liderado pela pesquisadora amazonense Larissa Lima de Queiroz, em colaboração com José Albertino Rafael (Inpa) e Raphael Aquino Heleodoro (Museu Nacional). Para Larissa, que se declara torcedora do Garantido desde criança, dar nome a essas espécies é uma forma de aproximar a ciência do cotidiano do povo da Amazônia.
“Como sou a única pesquisadora amazonense que estuda gafanhotos no Brasil, quis batizar essa fauna com nomes que reverenciam nossos povos originários e nossa cultura. O Norte é forte, rico em diversidade, e agora parte do nosso orgulho folclórico está eternizado na ciência”, celebra a pesquisadora.
O desafio de desbravar a floresta
A jornada para descrever essas espécies começou em 2019, mas o trabalho de campo ganhou fôlego apenas em 2022. A pesquisa não se limitou às matas; a equipe realizou um verdadeiro “garimpo” em acervos de museus nacionais e internacionais. Surpreendentemente, alguns espécimes de Proscopia caacy estavam preservados desde 1984, mas só agora foram reconhecidos como uma espécie inédita.
O esforço para encontrar novos insetos é hercúleo. A espécie Celatus nath, por exemplo, recebeu esse nome devido ao latim celatus, que significa “escondido”. A equipe levou cinco meses de buscas intensas em Presidente Figueiredo até localizar o primeiro espécime. Já a Milenascopia uatuma, encontrada na Reserva Biológica do Uatumã, exigiu que os pesquisadores explorassem áreas de várzea com lanchas para alcançar insetos abrigados em árvores parcialmente submersas.
A riqueza oculta da Amazônia
Das nove espécies catalogadas pelo estudo, oito são da Amazônia brasileira, abrangendo áreas no Amazonas, Pará, Acre e Roraima. Para Larissa, a descoberta de novos gêneros — que são grupos que abrigam diversas espécies — é o indicativo mais claro de que ainda sabemos muito pouco sobre a real dimensão da biodiversidade amazônica.
O levantamento reforça que, para além da importância ecológica, a região guarda segredos que misturam natureza e ancestralidade. O estudo não apenas amplia a lista de seres vivos descritos, mas também atua como um manifesto pelo reconhecimento da importância intelectual e cultural do estado do Amazonas para o restante do país.
Informações baseadas no portal G1 Amazonas.
Foto da capa: Reprodução / G1 Amazonas

