A política brasileira segue sendo um campo minado para as mulheres, especialmente dentro dos legislativos locais. Um novo levantamento da Rede A Ponte revela um dado alarmante: 77% dos casos de violência política contra vereadoras acontecem dentro da própria Câmara Municipal onde exercem suas funções. A pesquisa, que ouviu mais de 70 parlamentares, aponta que seis em cada dez vereadoras brancas e oito em cada dez negras já foram alvos de algum tipo de agressão.
O peso do preconceito
O relatório “Raio X da Violência Política de Gênero e Raça no Legislativo Municipal” desmistifica a ideia de que a Lei 14.192/2021 seria suficiente para conter os abusos. A realidade mostra que o perfil do agressor permanece estático: em 80% dos casos, trata-se de um homem branco cisgênero. O chamado “fogo amigo” também é uma ferida aberta, com 34% das agressões partindo de colegas do próprio partido.
Um leque de agressões
A violência contra a mulher na política é multifacetada. O estudo destaca que 89% das vítimas sofrem ataques psicológicos, que vão desde a interrupção proposital de falas até o corte de microfones. A violência simbólica, que empurra a mulher para fora das decisões, atinge 82% das parlamentares. Além do assédio moral e sexual, existem as violências econômica — com o bloqueio de recursos — e a processual, marcada por denúncias vazias feitas apenas para desgastar a imagem pública da parlamentar.
A invisibilidade como ferramenta de controle
Para a diretora-executiva da Rede A Ponte, Amanda de Albuquerque, o abandono começa logo após a posse. O sistema partidário falha em proteger suas eleitas, resultando em um esvaziamento da diversidade democrática. A omissão das instituições é evidente: de 44 casos registrados de violência de gênero e raça, quase nenhum teve um desfecho punitivo na Justiça ou nas instâncias partidárias.
Sub-representação feminina
O cenário de exclusão é corroborado pelos dados do TSE. Em 2024, mulheres ocuparam apenas 18,2% das cadeiras nas câmaras municipais, enquanto 734 cidades brasileiras não elegeram sequer uma mulher. O déficit é ainda mais dramático para mulheres negras e indígenas, que permanecem drasticamente sub-representadas em relação ao seu peso populacional. Sem uma rede de apoio e uma postura firme dos partidos, o medo da violência e a precarização do exercício do mandato continuam sendo as maiores barreiras para a presença feminina no poder.
Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

