O Teatro de Santa Isabel, no Recife, foi palco de uma celebração marcante de duas décadas de transformação social. O concerto comemorativo dos 20 anos da Orquestra Criança Cidadã não reuniu apenas músicos talentosos, mas histórias de superação que atravessaram fronteiras, levando jovens de comunidades periféricas aos palcos mais prestigiados do mundo.
Da precariedade ao sucesso internacional
Para Ivone dos Santos, de 57 anos, ver o filho, o violista Isaías Tavares, de 33 anos, brilhar no palco é o ápice de uma jornada de sacrifícios. A família, que vivia em condições precárias no bairro do Coque — área de alta vulnerabilidade no Recife —, viu sua trajetória mudar a partir de 2006, quando Isaías ingressou no projeto. O que começou com ensaios usando instrumentos improvisados de madeira e papelão, evoluiu para uma carreira sólida: Isaías tornou-se violista principal da Orquestra Sinfônica de Goiânia e teve formação acadêmica na Áustria.
“Sempre acreditei no potencial dele. A música não apenas educou, mas salvou o meu filho”, relata a mãe, lembrando os tempos em que a orquestra oferecia o suporte básico, como refeições diárias e um ambiente seguro para o desenvolvimento do jovem.
Talento que atravessa fronteiras
O projeto não revelou apenas Isaías. O contrabaixista Antonino Tertuliano, outra cria da iniciativa, hoje é o único latino-americano entre os 100 integrantes da prestigiada Orquestra Filarmônica de Duisburg, na Alemanha. Para ele, o legado da Orquestra Criança Cidadã vai além da técnica musical; trata-se de provar que a periferia pode ser um celeiro de talentos globais.
“Sempre retorno para conversar com os jovens. Digo que é plenamente possível alcançar patamares internacionais, desde que haja persistência”, afirma o músico, que planeja agora uma turnê educativa por escolas do Nordeste, viabilizada via Lei Rouanet, para democratizar o acesso à música clássica.
Impacto social na cidade e no campo
Fundador do projeto, o juiz João Targino reforça que o objetivo primordial da iniciativa sempre foi a formação de cidadãos. O sucesso do modelo pode ser observado tanto no cenário urbano quanto no rural. Em Igarassu, a 30 quilômetros da capital, o núcleo rural do projeto tem mudado o destino de filhos de agricultores.
É o caso de José Felipe da Silva, 20 anos, e Mirallayne Gomes, 19. Ambos trocaram a lida no campo — onde ajudavam as famílias na plantação de subsistência — pelo curso superior de música na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Com uma rotina exaustiva de estudos e transporte, a dupla de universitários tornou-se o novo espelho para as crianças de suas comunidades.
“As crianças da zona rural nos veem como referência. Sinto uma responsabilidade imensa ao ver que outros jovens decidiram entrar na música por nossa causa”, diz Mirallayne. Entre trajetos de ônibus e horas de dedicação aos instrumentos, esses jovens consolidam o propósito do projeto: mostrar que, com oportunidade, a arte é capaz de romper qualquer ciclo de exclusão.
Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

