Novo alerta para a saúde feminina
Mulheres que já passaram por cesarianas possuem um risco 45% maior de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional, um tipo raro de câncer que se origina nas células da placenta. A conclusão é de um estudo conduzido pela Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que traz um alerta sobre as consequências de longo prazo desse procedimento cirúrgico.
O que é a doença trofoblástica
A neoplasia é a forma mais grave da chamada mola gestacional — uma complicação que ocorre devido a uma fertilização anormal. Nesses quadros, a estrutura placentária se desenvolve de forma atípica, podendo ou não conter um feto inviável. Em cerca de 20% das ocorrências, essas células podem se fixar no útero e evoluir para o câncer. No Brasil, estima-se que a doença atinja uma a cada 200 a 400 gestantes, totalizando aproximadamente 2,9 mil casos anuais.
Pesquisa de peso internacional
Para chegar a esses números, pesquisadores da UFRJ analisaram dados de 2.904 pacientes, em parceria com o Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, ligado à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. O estudo revelou que, entre as pacientes que já tinham histórico de cesárea, a incidência de câncer de placenta foi de 26,5%, contra 20,8% entre aquelas que não haviam sido submetidas à cirurgia.
O impacto da cicatriz uterina
A hipótese central dos cientistas é que a cicatriz deixada pela cesárea no útero cria uma área de fragilidade e fibrose, além de alterar a vascularização local. A médica Gabriela Paiva, líder da pesquisa, explica que a cicatriz funciona como uma “porta de entrada” que facilita a invasão das células anormais. O estudo, inclusive, sugere que uma redução na taxa de cesáreas no país poderia evitar cerca de 177 casos de câncer de placenta por ano.
Alerta sobre o excesso de cirurgias no Brasil
O Brasil, que apresenta uma das taxas de cesáreas mais altas do mundo — atingindo 55% dos partos, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza o limite de 15% —, precisa repensar o uso do procedimento. O coordenador do ambulatório da UFRJ, Antônio Braga, ressalta que a cesárea é uma cirurgia essencial para salvar vidas, mas que sua indicação deve ser sempre cautelosa e consciente.
Recomendações e vigilância
Embora os dados sejam expressivos, a recomendação não é de tratamentos mais agressivos, mas sim de maior vigilância. Pacientes com histórico de cesárea que apresentarem mola gestacional devem receber um acompanhamento mais rigoroso desde o diagnóstico. Atualmente, o protocolo de tratamento inclui o esvaziamento uterino, monitoramento do hormônio HCG e, em casos específicos, quimioterapia.
Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

