O Amazonas vive um cenário de extrema tensão no campo. Segundo o novo relatório “Conflitos no Campo Brasil”, divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), mais de 116 mil pessoas foram afetadas por disputas por terra, água e recursos naturais ao longo de 2025. Ao todo, foram mapeados 98 conflitos envolvendo quase 24 mil famílias amazonenses.
Radiografia da violência no interior
Embora o número de ocorrências tenha registrado uma queda de 25,7% na comparação com 2024, a gravidade das situações preocupa autoridades e movimentos sociais. O levantamento aponta que os povos indígenas são as maiores vítimas, aparecendo em 42 das ocorrências, seguidos pelos posseiros, com 31 casos. Os principais agentes causadores dessa pressão sobre as comunidades são fazendeiros, empresários e, em menor escala, órgãos governamentais, além de ações de madeireiros e garimpeiros.
Ameaças e insegurança nas comunidades
A disputa por territórios é o motor principal da violência. Das 98 ocorrências, 89 estão diretamente ligadas à posse de terra. O cenário é alarmante: o relatório detalha uma rotina de medo, que inclui ameaças constantes de expulsão, invasões de propriedades, desmatamento ilegal e a crescente sensação de impunidade, muitas vezes alimentada pela omissão ou conivência de autoridades públicas.
A violência física também deixou marcas profundas. O estado contabilizou 36 vítimas de agressões diretas, ameaças e tentativas de homicídio. Tragicamente, dois posseiros foram assassinados nos municípios de Boca do Acre e Lábrea. O Sul do Amazonas e a região do Alto Solimões seguem como os pontos mais críticos dessa instabilidade.
O custo das águas e o trabalho escravo
O impacto sobre as fontes de água mudou de forma drástica. Embora o número de conflitos tenha caído, o número de famílias prejudicadas disparou 165,9%, saltando de 1,9 mil para 5,1 mil. A contaminação por minérios, a poluição de rios e a restrição ao acesso às águas estão no centro do problema. Além disso, o relatório trouxe à tona o drama do trabalho escravo: 25 pessoas foram resgatadas em condições análogas à escravidão em garimpos ilegais nos municípios de Borba e Maués.
Um alerta para além dos números
Para a CPT, a queda no número absoluto de conflitos pode ser um sinal de alerta, e não de trégua. Especialistas sugerem que a diminuição dos registros pode refletir um recuo forçado das comunidades diante de um ambiente de medo extremo. O arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, reforçou que o relatório não trata apenas de estatísticas, mas de vidas humanas que precisam ser protegidas. “Não estamos lendo papéis, estamos lendo vidas que foram silenciadas”, afirmou o cardeal, destacando a necessidade de visibilidade para as violações que ocorrem nos locais mais distantes do estado.
Informações baseadas no portal G1 Amazonas.

