Um século de ciência e compromisso social
O Brasil perdeu, nesta quinta-feira (16), em São Paulo, uma de suas mentes mais brilhantes. Elza Salvatori Berquó, referência máxima nos estudos populacionais no país, faleceu aos 100 anos. Matemática de formação e cientista por vocação, Elza dedicou décadas de sua vida a dissecar a realidade brasileira, utilizando dados demográficos e censitários para mapear as profundas transformações sociais do país entre as décadas de 1960 e 2000.
Legado acadêmico e resistência
Nascida em Guaxupé (MG), Elza construiu uma trajetória acadêmica sólida. Formou-se em Matemática pela PUC-Campinas, obteve mestrado em Estatística pela USP em 1949 e especializou-se em Bioestatística na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Sua carreira foi marcada pela articulação de centros de pesquisa fundamentais para a ciência nacional.
Em 1968, mesmo após ser aposentada compulsoriamente pela ditadura militar — à época, atuava na Faculdade de Saúde Pública da USP —, não interrompeu seu trabalho. No ano seguinte, foi uma das fundadoras do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), ao lado de figuras como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti, tornando-se um símbolo de resistência intelectual frente ao regime autoritário.
Defesa dos direitos e políticas públicas
Além do rigor técnico, Elza Berquó foi uma voz ativa e corajosa na defesa dos direitos humanos. A demógrafa lutou persistentemente pelo acesso a métodos contraceptivos e pela garantia dos direitos reprodutivos, trazendo o debate sobre mortalidade infantil para o centro das políticas públicas. “Ela trouxe ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político”, destacou Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania.
Sua influência institucional foi vasta. Foi fundadora do Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp) — que desde 2014 leva seu nome — e presidiu, a partir de 1995, a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD). Para o acadêmico Eduardo Rios Neto, Elza é, indiscutivelmente, a “mãe da demografia brasileira”, sendo responsável pela criação das principais bases que estruturam a área no país até hoje.
Uma cientista que via pessoas nos números
O impacto de Elza Berquó ultrapassa os muros das universidades. Ao longo de seus 100 anos, ela defendeu que a democracia deve ser sustentada por políticas públicas baseadas em evidências científicas. Para seus colegas e sucessores, sua partida marca o fim de um capítulo histórico, mas deixa um legado vivo nas instituições que fundou e nas gerações de pesquisadores que formou.
“Ao olhar para a vida de Elza, celebramos suas conquistas, as pessoas que ela formou e sua trajetória incrível”, afirmou Gláucia Marcondes, atual coordenadora do Nepo-Unicamp. O presidente da CNPD, Richarlls Martins, resumiu a essência da cientista: “Elza sempre viu pessoas atrás dos números”.
Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.

