Para milhares de ribeirinhos que habitam as margens do Rio Juruá, em Carauari (AM), o acesso ao básico – como uma consulta de pré-natal – sempre foi um desafio logístico extremo. A jornada até a zona urbana, feita exclusivamente por rios e igarapés, pode levar dias, dependendo das condições de navegabilidade e do nível das águas. Para gestantes como Aldeniza Silva e Silva, moradora da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, a dificuldade de deslocamento significava, na prática, ficar sem o acompanhamento médico recomendado pelo Ministério da Saúde.
Saúde mais próxima da comunidade
O cenário começou a mudar com a inauguração de dois novos pontos de atendimento à saúde nas regiões de Campina e Bauana. As unidades, implementadas pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), foram instaladas estrategicamente para descentralizar o atendimento que antes estava concentrado apenas na sede do município, a mais de 1,6 mil quilômetros de distância de Manaus.
Para os moradores, o impacto foi imediato. Agora, pacientes que antes gastariam centenas de reais com combustível para percorrer horas de lancha podem ser atendidos dentro de sua própria região. O projeto, apelidado de “SUS na Floresta”, não cria uma rede paralela, mas fortalece o sistema público já existente, integrando as novas unidades à estratégia de Saúde da Família e ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Tecnologia a serviço da vida
As novas estruturas foram adaptadas para a realidade da região amazônica. Cada posto conta com consultórios presenciais, área de triagem, suporte odontológico e equipamentos voltados para a telessaúde. O modelo permite que médicos da zona urbana realizem consultas remotas em casos que não exigem exame físico imediato, otimizando o tempo dos profissionais e garantindo assistência contínua mesmo quando o acesso à região é dificultado por eventos climáticos.
O projeto é fruto de uma parceria público-privada robusta, envolvendo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), a organização Umane e o apoio técnico da prefeitura local. A gestão integrada visa garantir que, em casos de emergência, o atendimento inicial ocorra localmente, evitando que ferimentos simples, como cortes ou infecções, evoluam para quadros graves pela falta de socorro imediato.
Resultados imediatos e expansão
Nos primeiros dias de operação, as unidades de Campina e Bauana já registraram atendimentos que, anteriormente, exigiriam o envio de ambulanchas de resgate para a cidade. Casos de inflamações agudas, ferimentos e controle de doenças crônicas foram resolvidos no local. Enfermeiros e técnicos se revezam em turnos quinzenais, garantindo uma presença constante para a população de 56 comunidades ribeirinhas, totalizando cerca de 4,7 mil pessoas beneficiadas.
A iniciativa, que ganhou força durante a pandemia de covid-19, busca ser uma resposta estruturante para áreas remotas. Segundo a gerência do programa, o objetivo é garantir que a população que protege a floresta também tenha assegurado o seu direito fundamental à saúde. Após a entrega destes pontos em Carauari, o projeto “SUS na Floresta” planeja expandir sua atuação para os municípios de Itapiranga e Novo Aripuanã, consolidando uma rede de proteção essencial para o interior do Amazonas.
Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

