O anúncio de um acordo de cooperação nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita, previsto para durar décadas e movimentar bilhões de dólares, colocou em xeque a coerência da política externa da Casa Branca. Embora os detalhes completos do documento ainda sejam mantidos sob sigilo e aguardem o crivo do Congresso americano, o movimento levanta questionamentos imediatos sobre os critérios de Washington para o uso de energia atômica no cenário global.
Contradições geopolíticas
A controvérsia reside na disparidade de tratamento dispensado pelo governo de Donald Trump. Enquanto os EUA pressionam severamente o Irã — exigindo o encerramento de seu programa de enriquecimento de urânio sob a justificativa de riscos militares —, o mesmo governo abre as portas para que a monarquia saudita desenvolva tecnologia semelhante, mesmo sob a alegação de fins pacíficos. A situação é agravada pelo fato de o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, já ter declarado publicamente, em 2018, que o reino buscaria armamento nuclear caso Teerã seguisse por esse caminho.
Sob pressão de Israel, Trump afirmou recentemente que o pacto nuclear estaria condicionado à adesão da Arábia Saudita aos “Acordos de Abraão”, que exigem o reconhecimento de Israel pelos países árabes. Contudo, os sauditas mantêm a exigência de garantias concretas para um Estado palestino, ponto rejeitado pelo governo de Benjamin Netanyahu, o que deixa o futuro do acordo em uma zona de incerteza.
Segurança e falência do “escudo americano”
Especialistas apontam que a movimentação visa recompor a influência americana na região após o desgaste na confiança de Riade frente à escalada dos conflitos com o Irã. Segundo o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, da UFRJ, a parceria sinaliza um reconhecimento da fragilidade do apoio militar americano: “É um reconhecimento da falência do escudo americano. Ao permitir que a Arábia Saudita desenvolva tecnologia nuclear, os EUA sugerem que o reino poderá ter capacidade de resposta própria diante das tensões com Teerã”.
Preocupa, ainda, a resistência saudita em assinar o protocolo adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que permitiria inspeções-surpresa. Para a Associação de Controle de Armas, permitir que a Arábia Saudita ignore tais salvaguardas enquanto negocia com o Irã é uma estratégia “insensata e míope”.
Sinal de instabilidade regional
Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da UnB, reforça que a parceria envia um sinal alarmante. Para ele, o histórico de programas nucleares demonstra que intenções iniciais de uso civil podem ser subvertidas no futuro, gerando um efeito dominó de incertezas. O cenário ainda contrasta com a postura rígida dos EUA diante de outros aliados, como a Coreia do Sul, que há anos pleiteia sem sucesso o direito ao enriquecimento de urânio, expondo o que analistas chamam de “dois pesos e duas medidas” na diplomacia de Washington.
O longo caminho das negociações
As tratativas, iniciadas ainda em 2008, enfrentaram constantes entraves por divergências sobre protocolos de não proliferação. O governo Biden, que sucedeu administrações anteriores, também manteve cautela devido ao histórico de direitos humanos do reino, especialmente após o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi. No entanto, o cenário mudou no segundo mandato de Trump, ganhando tração em meio à crise recente no Mar Vermelho, onde ataques de rebeldes houthis no Iêmen têm paralisado rotas essenciais de exportação de petróleo e elevado a pressão pela busca de novas garantias estratégicas por parte dos sauditas.
Fonte: Agência Brasil. Edição: AM Direto.
Foto da capa: Reprodução / Agência Brasil.

